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The Grand Tour Lochdown: vivendo o sonho americano (na Escócia)

Para produzirmos os poucos últimos Grand Tour Lochdown – meu programa disponível em breve no Amazon Prime -, dirigi um buggy V8 pelo deserto de Namibia, um Bentley Continental nas honrosas estradas de Madagascar, e naveguei muito rápido no rio Mekong numa lancha hidrojato da guerra do Vietnã com dois motores de Corvette na traseira.

Para a próxima missão estávamos planejando uma viagem para as nevadas imensidões no norte da Rússia. A equipe de produção trabalhou meses procurando locações, enviando os carros para o ponto de partida e obtendo permissão para fechar o aeroporto principal de Murmansk um dia inteiro para a cena perigosa mais espetacular que já tentamos.

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Mas apenas uma semana antes do momento em que devíamos viajar para lá, veio o Covid, e alternamos para a Escócia.

Pois bem, o que fazemos normalmente para um especial de 90 minutos é escolher três carros quaisquer e depois tentar andar com eles em terreno totalmente inadequado. Isso gera risco e tensão. Será que o Lancia conseguirá rodar em Botswana? O Volvo, em Serengeti? O Hammond vai se acidentar de novo?

Mas não se pode fazer isso muito bem na Escócia, porque lá tem estradas e postos de combustíveis onde todos falam um inglês diferente. Assim, se começarmos dizendo “podemos seguir com esses carros direto de Berwick-on-Tweed às ilhas Outer Herbides?”, todos diriam apenas “podem”, e dariam as costas para continuarem assistindo televisão.

Carros americanos não?

Tivemos que fazer uma pergunta diferente e o que ouvimos foi: na Europa bebemos cerveja americana e vestimos calças americanas e ouvimos música americana, mas nunca dirigimos seus carros. Por quê?

Quando eu estava crescendo, sentávamos para assistir o último filme policial de modo que veríamos Jim Rockford acabando com seu Pontiac Firebird e Starsky em seu Ford Gran Torino e o gordo Frank Cannon em seu Lincoln Continental, e então viraríamos para nossos pais e diríamos: “Papai, posso ter um Ford Anglia?” Por que fizemos isso?

Para consertar isso comprei um Lincoln Continental Mark V, como o de Jock Ewing em “Dallas”, James comprou um Cadillac Coupé de Ville como o de Ray Liotta em “Os Bons Companheiros”, e Richard comprou um Buick Riviera traseira-de-barco, como o demolido por Bruce Willis em “The Last Boy Scout”.

Coleção de esquisitos

Acho que nunca vi uma coleção de carros tão esquisitos num lugar só. Meu Lincoln azul Wedgwood de 10 mil libras tinha bancos revestidos em veludo fixado por botões, que era extremamente macio, e um relógio Cartier de verdade. Era como sentar numa sala de estar de Cheshire, apenas com adesivos decorativos Fablon, e sem muito espaço.

Ainda que o carro tenha 5,79 metros de comprimento — 91 centímetros mais que um Range Rover atual — ele só tem duas portas e bem pouco espaço atrás. O porta-malas, porém, é enorme.

Sob o capô, que é mais comprido que muitos carros europeus, ou casas, havia um motor V8 de 6,6 litros, o qual de alguma forma consegue produzir 166 cv. Rápido? Não. Isso não é como você chamaria este carro. Ou simpático. Principalmente por suas rodas serem tão para dentro que parecia um hipopótamo sentado num carrinho de bolo.

O Cadillac do James May, meu colega de Gran Tour, enquanto isso, parecia que pegaram todo estoque do mundo de vinho burgundy para pintá-lo. Havia mais burgundy do que nas colchas de todo motel americano. E não só no exterior. Até a alavanca seletora do câmbio era burgundy.

O motor era um V8 de 8,2 litros — o maior V8 jamais instalado num carro de produção à época — e apesar de eu nunca ter olhado, desconfio que fosse pintado burgundy também.

Já o Buick do Richard Hammond, que completa o nosso trio, era bem feio, e o limpador de para-brisa parou de funcionar, o que, por ser na Escócia, acabaria sendo um problema constante. Houve, todavia, um problema muito maior. É algo que não se vê na tela porque tudo aconteceu por trás das cenas. O problema de filmar durante a pandemia.

Como gravar na pandemia?!

Não pudemos, por exemplo, nos hospedar num hotel. Tivemos que carregar tudo, trazer nossa própria equipe de cozinha e comer em mesas para uma pessoa, todos olhando na mesma direção como se estivéssemos fazendo uma prova. E os bares estavam fechados, e tínhamos que ir para cama às dez da noite.

Às vezes, quando uma cidade simplesmente não tinha um hotel grande o suficiente para as 50 pessoas da nossa equipe e todos tinham que fazer o teste do covid, tivemos que usar trailers. Todos. Por isso nosso lento percurso em comboio era de 27 quilômetros. Eu gostaria de me desculpar agora, se possível, às amáveis pessoas da Escócia que ficaram juntas de nós. E ao homem que era dono da floresta na qual o meu trailer bateu no quarto dia.

Sei em que você está pensando. Oh, não, outra manobra-arobacia do Grand Tour que estava no script. Não foi. Havíamos decidido não fazer brincadeiras com os trailers nessa ocasião e cumprimos, de modo que imagine minha surpresa quando estava dirigindo e notei pelo canto do olho que eu estava sendo ultrapassado pelo meu trailer.

Por instinto pense estar no meio de um grande acidente, que era confuso porque eu continuava na estrada e ainda tinha controle de direção e freios. Não havia som de metal se desintegrando ou pneus cantando, ruídos que normalmente acompanham acidentes de carro.

O que aconteceu foi que a lança de engate simplesmente se soltou e como resultado meu quarto de dormir acabou soterrado na base de um barranco numa fechada e impenetrável floresta.

Veja uma prévia do The Grand Tour Lochdown:

O lugar mais bonito do mundo: pena que não dá para ver…

Finalmente, depois de sete dias de chuva pesada — não guiei o Lincoln por mais de 100 metros sem os limpadores — chegamos naquela parte da Escócia que pode estufar o próprio peito em qualquer concurso para escolher “o lugar mais bonito do mundo”. Mas não pudemos ver nada daquilo porque tudo acima dos nossos sapatos estava nas nuvens.

E então estávamos em Skye e depois numa balsa rumo às Outer Hebrides. E quando desembarcamos em North Uist, uma linda e mal-assombrada ilha da qual nunca havíamos ouvido falar, fomos direto ao bar mais próximo.

Eles  estava cheio de gente interessante. Parece que cada programa de tevê penalizado pela covid decidiu que North Uist era praticamente tão “exótica” quanto a Inglaterra para reunir gente, e foi para lá também.

O único caso que restou foi que na nossa curta “desplugada” parada no nosso Grand Tour especial, vi que Richard Hammond fez todo o percurso até avistar o marco de chegada sem sofrer um único acidente. Toda noite ele ia dormir e ele mesmo tirava suas calças em vez de precisar chamar um paramédico para fazê-lo. Mas, tudo bem, não se preocupe. Em poucos segundos ele conseguia.

E foi seu melhor acidente até agora, principalmente por ele não precisar ser levado de ambulância aérea. Em vez disso ele foi para casa num avião que fretei para nos manter a salvo da gripe do morcego.

Assim, por que nós nunca compramos carros americanos? Não tenho ideia. Eles são hilariantes!

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